Pesquisa de DNA fecal para o rastreamento do câncer do intestino: como estamos?

Drs. Sergio Araujo e Victor Seid

Há duas consequências conhecidas do rastreamento do câncer do intestino:

1. há diagnóstico de maior proporção de casos em estágios menos avançados da doença, e como resultado:

2. há diminuição da mortalidade por câncer do intestino quando a população de indivíduos rastreados é comparada a uma população não-rastreada.

No entanto, persistem dúvidas sobre qual o melhor método ou combinação de métodos para prevenir o câncer do intestino.

A colonoscopia representa a única forma de rastrear o câncer colorretal que permite a realização de uma ação que é a verdadeira responsável pela redução do risco de morte por câncer: a polipectomia endoscópica.

Há no entanto, várias desvantagens associadas à colonoscopia, dentre as quais ressaltem-se três:

1. a necessidade de preparo intestinal

2. a necessidade de sedação, e

3. o risco de complicações.

Como resultado, a pesquisa de sangue oculto nas fezes representa possivelmente o método de rastreamento do câncer do intestino mais realizado no mundo. É simples, rápida, pode ser repetida anualmente e é livre de complicações. E livre de qualquer tipo de dieta pré-teste, se o método a ser empregado for um teste imunológico. Há no entanto dois problemas:

1. o risco de resultado falso-negativo em um único exame de sangue oculto nas fezes pode atingir 30% (método do guaiaco). Isso significa que o indivíduo pode abrigar um câncer ou um precursor e o exame resultará negativo;

2. e se o exame resultar positivo, há indicação de colonoscopia.

A baixa sensibilidade da pesquisa de sangue oculto nas fezes está associada ao fato de que o método não detecta a lesão precursora ou maligna em si, mas sim detecta se ela está sangrando ou não. Ora, sabemos que o sangramento a partir de uma lesão neoplásica  é intermitente, razão precípua da baixa acurácia do método para a prevenção do câncer do intestino, mesmo quando um teste imunológico (que emprega um anticorpo monoclonal dirigido contra a hemoglobina humana) é empregado.

Como resultado, vem se estudando o papel da pesquisa do DNA fecal para o rastreamento do câncer do intestino. Esse método se baseia no emprego de sondas moleculares em um exame de fezes para o diagnóstico de produtos de mutações de genes (mais de 20 são testados, geralmente) envolvidos no aparecimento do câncer do intestino. Esses genes e seus produtos estão presentes nas células intestinais esfoliadas a partir da mucosa intestinal e normalmente presentes nas fezes.

Câncer do Intestino - Ícone ColorretalImperiale e cols. [N Eng J Med 2014; 370 (14): 1287-91] em recente estudo, compararam duas modalidades de rastreamento do câncer do intestino em 9.989 indivíduos:

(1) a pesquisa de sangue oculto nas fezes pelo método imunológico, e

(2) a pesquisa de DNA fecal associada a um metodo imunológico para a pesquisa de sangue oculto nas fezes.

 

A sensibilidade para o diagnóstico do câncer de intestino foi maior para a pesquisa de DNA fecal do que para a pesquisa de sangue oculto (92,3% vs. 73,8%). O mesmo ocorreu para o diagnóstico de adenomas (42% vs. 23,8%). No entanto, a especificidade global da pesquisa de sangue oculto foi maior para a pesquisa de sangue oculto.

Ese resultado demonstra que o ganho com o emprego da pesquisa de DNA fecal do jeito que se encontra hoje é pequeno sobretudo quando considerado o preço bem mais elevado da pesquisa do DNA fecal quando comparada à pesquisa de sangue oculto imunológica . Associadamente, há um maior risco para o resultado de exames falso-positivos o que levaria a uma aumento no custo e risco do rastreamento resultante da indicação de colonoscopias desnecessárias.

O assunto é complexo e ainda cabe bastante pesquisa. Isso no entanto não justifica que uma significativa parcela da população brasileira continue sem nenhuma opção de rastreamento do câncer de intestino, o qual deve começar a partir dos 50 anos de idade. Nos Estados Unidos, país onde a incidência e mortalidade por câncer foram significativamente reduzidos por conta de rastreamento, essa fração de pacientes descobertos gira em torno de 50%. No Brasil, esse número é desconhecido.